Bronze no Mundial de atletismo, Caio Bonfim é suspenso por doping

por Demétrio Vecchioli | Folhapress

Havia um clima de tensão no ar quando Caio Sena Bonfim ganhou a medalha de bronze na marcha atlética de 20 km no Mundial de atletismo. Isso foi no dia 13 de agosto de 2017 e, naquele momento, os bastidores da modalidade já sabiam que Caio havia sido pego em exame antidoping, ainda que a família dele levasse a informação como um mero “boato”. Na verdade, ele já havia sido comunicado de um resultado analítico adverso e estava se defendendo nas esferas cabíveis.

Quase um ano inteiro se passou e, nesta quinta-feira (19) a AIU (Athletics Integrity Unit), um órgão independente da IAAF (Associação das Federações Internacionais de Atletismo, na sigla em inglês), criado no começo do ano passado, informou o fim do processo e a suspensão de Caio por seis meses –pena mínima. Apesar de o doping ter sido antes do Mundial, ele não vai perder a medalha. Mais uma vez, comprovou-se que o brasileiro consumiu suplemento alimentar contaminado.

“Eu estou feliz por ter conseguido provar minha inocência. A gente ficou com muito medo, é uma sacanagem o que aconteceu. Eles viram que os resultados estavam muito estranhos, que isso não é do mundo do esporte exames, surpresa, fiz vários exames do passaporte biológico e eles viram que meu organismo é igual desde 2011. O Brasil precisa ter consciência melhor sobre os contaminados”, comentou Caio à reportagem. “Foi um pesadelo do qual acordei.”

O marchador inclusive já entrou com queixa criminal contra a farmácia de manipulação que forneceu o medicamento. Em maio do ano passado, ele passou mal durante a Copa Pan-Americana, no Peru, já por conta da ingestão do suplemento contaminado. De fato, à época ele desmaiou e foi parar no hospital com batimentos cardíacos muito acima do normal e, segundo ele, com urina negra. “Parecia Coca-Cola. Se fosse outra pessoa, que não atleta, teria morrido”.

Caio, que foi defendido pelo advogado Marcelo Franklin, está suspenso por seis meses, retroativamente a março de 2018. Portanto, ele pode voltar a competir já em setembro. A lista da AIU não dá muitos detalhes do caso, apenas que ele testou positivo para bumetanide, um diurético, e dá a data de 27 de fevereiro de 2018, quando teria sido realizado o julgamento.

Em julho do ano passado, a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) sabia do risco de não ter Caio Bonfim no Mundial. Os pais dele, responsáveis pelo seu treinamento, se negaram a dar entrevistas à reportagem nos dias que antecederam a prova. Colegas disseram que Caio “sumiu” das conversas em redes sociais num momento que queriam mais informações sobre o que era, naquele momento, um boato.

A situação seguiu em segredo por meses a fio. Em maio, Caio Bonfim ficou fora da equipe brasileira que disputou a Copa do Mundo de Marcha, uma espécie de Mundial da modalidade. A CBAt alegou que ele havia pedido dispensa “para tratar de uma lesão no pé”. Na verdade, ele já cumpria suspensão.

120 CASOS

Nesta sexta-feira (20), a AIU soltou comunicado informando uma lista de 120 procedimentos disciplinares que passaram pelo seu controle desde abril do ano passado, sendo 118 de doping. A maior parte das punições já eram conhecidas, mas há nomes novos, como de Ruth Jebet, campeã olímpica e recordista mundial dos 3.000m com obstáculos, competindo pelo Bahrein –ela é natural do Quênia.

O caso de Jebet é um reflexo da letargia do atletismo para punir atletas que falharam em testes antidoping. O resultado negativo dela é conhecido desde março, quando o jornal britânico The Guardian revelou o caso em primeira mão. Nunca nenhuma entidade do atletismo havia confirmado o doping, o que só ocorre agora.

Dos 120 casos divulgados pela AIU, 85 são de medalhistas olímpicos e/ou mundiais e 47% deles são de russos –há ainda sete ucranianos e sete bielo-russos. Muitos são casos referentes a reavaliação de exames colhidos durante os Jogos de Pequim, em 2008.

Além de Caio, há mais uma brasileira: Juliana Moreira, velocista que caiu no doping pela segunda vez na carreira em 2014. Ela só foi julgada em 2017, pegando oito anos de suspensão, até 2022.

A AIU promete que, a partir de agora, vai atualizar a lista constantemente, informando cada passo dos casos que chegam até ela, desde a punição preventiva até o julgamento final. No Brasil, a ABCD (Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem) já faz assim.

Foto: Reprodução

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