Colunista Moacir Saraiva: “Filosofia do Coveiro”

A sociedade gosta de evocar filósofos quando deseja discorrer mais profundamente sobre um tema. Pois acredita que as reflexões emitidas por eles são sábias e por serem tão certeiras até se tornam axiomas. Os anos passam, séculos se vão, mas as filosofias se perpetuam. E pensamentos surgidos desde o inicio da humanidade, manifestados pelos filósofos se alastram pelo mundo afora e ganham o meio acadêmico e chegam, inclusive, às pessoas sem escolaridade.

Quando se ausculta a fala das camadas que não se aprofundaram nos livros ou que nem contato com eles tiveram, daí, também, surgem falas com a mesma filosofia dos antigos, com roupagens do nosso tempo e analogias brilhantes criadas a partir da ocupação dos “filósofos” contemporâneos.

Se enveredarmos pelo tema do orgulho, desde que se tem conhecimento da existência das cabeças pensantes no mundo, há pensadores que se debruçam sobre ele e até hoje ganha novos vieses sem perder as raízes do passado.

Shakespeare nos diz que as coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos, acredito que muita gente se apega a este pensamento do inglês do século XVI. Alguns indivíduos, de todos os tempos, querendo se mostrar grandes utilizaram e até hoje se apegam a ideia desses pensadores a fim de mostrar conhecimento e com um tom professoral para admoestar aos demais a fim de que sejam menos orgulhosos.

O rapaz que conheci, não frequentou escolas, não tem diplomas, mas conhece as ideias sobre o egoísmo a partir da melhor escola do mundo que é a própria vida, pois aqui é a fonte de todos os pensadores, sendo eles letrados ou não.

O coveiro um rapaz trabalhador, honesto, alegre e amante da profissão, boa conversa e atento à vida. Nas muitas conversas que mantivemos, geralmente, no interior do cemitério, pois fui lá algumas vezes para enterros de amigos e/ou parentes, e, sempre quando posso, converso com os coveiros ou com os ajudantes. Em uma destas conversas, no fim de uma atividade laboral deles, este novo conhecido iniciou o papo

fazendo alusões à vida, comentários riquíssimos, não me surpreendi porque já tenho ouvido riquezas assim de outros profissionais sem instrução escolar, sapateiros, pedreiros, carpinteiros, garis e outros, não com muita frequência, mas ouço.

Pedi que ele falasse sobre o motivo que o levou a exercer aquela profissão e do amor que ele tem por ela.

Ele falou alguns motivos, mas o que me chamou a atenção foi quando ele disse que a profissão o ajudou a abrir os olhos para a vida, para a beleza do viver e o quanto se deve viver com intensidade. E concluiu com algo que não é novo, e lembra Shakespeare e outros pensadores. E me falou com sobriedade:

– Moço, quando vejo na rua homes e muieres cheios de bestage, uns pisam no chão proque não tem jeito.

Continuou ainda:

– Todos eles chegam aqui e eu é que jogo terra por riba deles. De que vale este orguio todo?

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