Colunista Moacir Saraiva: “O escorraçado”





Por Moacir Saraiva

O pior para um sujeito é ter de matar tempo, ter um tempo livre forçado e sem ter para onde ir, ele anda, anda, procura um espaço e não o encontra, pois ele nada está fazendo, forçadamente. Um dia ou outro é resolvível, entretanto, quando isso é amiúde e muito amiúde é um problemão.

As pessoas estão na rua fazendo algo, nos seus trabalhos ou andando e resolvendo afazeres em bancos, ou fazendo compras, ou seja, diferentemente do sujeito que apenas mata o tempo que anda, anda e o tempo fica amarrado sem que as horas avancem.

Para não ficar bestando, o sujeito quer otimizar o tempo e, naturalmente, vai ocupar um espaço em um bar, em um restaurante ou outra casa comercial que o receba como mais um cliente, em cidade pequena são estas as opções. Quando se tem consciência da vida, do tempo, não se quer desperdiçá-lo, um minuto perdido é irrecuperável. O moço, em questão, tinha este olhar para o mundo e, por circunstâncias alheias a sua vontade, era obrigado a ficar na rua um bom tempo todos os dias e, às vezes, nos dois turnos. Ele, a todo custo, procurava espaços e afazeres a fim de não desperdiçar as horas em que era obrigado a ficar na rua.

Em algumas oportunidades ficava em um bar, buscava um livro para ler, papel para escrever, ou outro material para estudar, ou, ainda, simplesmente conversava com frequentadores, no entanto, bar é perigoso, uma vez que leva a ingerir cerveja e isso todo dia pode levar a algo pior. Em outros momentos, fincava o pé em estabelecimentos não apropriados para ele desenvolver leituras ou atividades que exigissem mais concentração. Às vezes, ele invadia restaurantes com um maior leque de atividades e aí era bom porque ele lia bastante, escrevia e aproveitava bem o tempo, além de tomar suco ou café ao invés da cerveja. Além do espaço, pessoas agradáveis para conversar ele encontrava lá.

Um dia, dois dias, três dias, uma semana ainda vai, mas quando chega um mês até os funcionários começam a reclamar, e aquela receptividade do inicio, aqueles sorrisos largos passam a não existirem mais. A recepção passa a ser apenas com um sorriso murcho, um oi quase sem sair da boca e sem brilho nos olhares. São manifestações claras que constatam um adágio: tudo de mais é sobra. O sujeito entendia o recado, mas teimava em ir ao recinto.

O estabelecimento tinha poucas mesas, e o dono já sabia mais ou menos a hora que o freguês mais assíduo chegava. E não queria expulsá-lo, mas queria se ver livre do freguês incômodo, pois havia dias que ele não consumia nada, e no dia a dia, consumia apenas água ou suco. Perto da hora da chegada, ele pedia a um funcionário que ficasse na porta olhando se o freguês ia chegar, quando ele apontava na esquina, outro funcionário colocava em todas as mesas uma placa em que aparecia o seguinte aviso: RESERVADA.

Depois do quarto dia, o freguês entendeu a mensagem e não pôs os pés mais naquele lugar agradável e que servia para não matar o tempo.

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